
Zuenir Ventura
“1968: O ano que não terminou” é um livro do escritor e jornalista Zuenir Ventura e foi lançado 20 anos após a data do título. Serviu de inspiração para a minissérie “Anos Rebeldes”, veiculada em 1992 na Rede Globo, e até hoje é uma referência para estudiosos e curiosos sobre o assunto.
Zuenir não apenas escreveu, como também esteve envolvido em muitos dos acontecimentos. Mas, além da vivência, muita pesquisa foi feita em jornais e revistas antigos, e milhares de depoimentos foram concedidos. Isso permitiu uma variedade maior de pontos de vista, garantindo um arquivo mais extenso de fatos no imaginário do leitor, o que ajuda na reconstrução e entendimento do que está sendo contado.
O livro aborda superficialmente o ano de 1968 nos outros países, e mergulha totalmente no Brasil da época. Começa falando sobre o “Réveillon da Casa da Helô”, festa que aconteceu na virada de 1967 para 1968 com diversas personalidades, intelectuais e políticos, usada como metáfora para contextualizar o que estava por vir. “Mais do que buscar diferenças ideológicas e pessoais, era hora procurar os seus pares, acertar o passo e dançar conforme a música”, escreve o jornalista.
A partir do “Réveillon da Casa da Helô”, vários personagens reais da época vão surgindo e nos transportando para outros acontecimentos, atraindo mais outros personagens. Seus hábitos, comportamentos e ideais vão sendo revelados. A bebedeira juvenil vai se tornando algo mais condensado a partir do momento em que esses até então jovens se reúnem e começam a questionar valores vigentes (muitos até hoje), como virgindade, profissões, casamento e sua funcionalidade, entre outros.
Com toda essa contestação, mudanças foram ocorrendo na sociedade. A mulher começou a tomar a pílula, as pessoas passaram a discutir o sexo e a sexualidade. Uma certa ambigüidade pairava no ar, pois muitas vezes ações e discursos não andavam paralelamente. Mas, com certeza, transformações estavam ocorrendo, gerando debates inflamados.
A geração de 68 não era mais inocente, graças a tudo que passou a acontecer a partir de 1964: alienação, repressão, censura, tortura e mortes. Ela desprezava o passado recente, e queria um futuro melhor. Apesar de alguns erros terem sido cometidos na tentativa de efetuar mudanças, foi uma época de produção cultural intensa, tanto que até hoje ouvimos falar (ou vemos novos trabalhos) de muitas pessoas que fizeram parte da história dessa “revolução”.
O modo como Zuenir intercala histórias sobre política, música, prisões, roupas, drogas, festivais e filmes torna o livro ainda mais interessante. Mostra diversas facetas de como era viver em 1968, o que acaba transformando o livro em um romance real. Mas sem exageros ou passionalidade. O livro é um relato sincero, com passagens ora tristes, ora bem humoradas, empolgantes ou revoltantes tanto pela atitude dos poderosos quanto pelas contradições dos “revolucionários”. Como o autor cita nos agradecimentos, poderíamos chamar de “jornalismo de reconstrução”.
“1968: O ano que não terminou” é um close em uma época que, como um furacão, passou chacoalhando tudo ao redor, apesar de quem estivesse muito perto não pudesse conceituar exatamente o que estava acontecendo. E independente de as pessoas terem sido contra ou a favor dos fatos ocorridos, não há como negar a importância desse ano, não só para o Brasil, como para todos os países que “explodiram” e transformaram sua realidade. Como diria Umberto Eco na introdução do livro, “pode-se processá-lo, analisá-lo, condená-lo, mas não cancelá-lo como um fenômeno de loucura”.
1 Comentário
3 03UTC Dezembro 03UTC 2008 às 10:53 pm
Ainda não li esse livro , mas estou procurando-o , ele é muito bom , e realmente é isso que você disse , começa com relatos do que estava acontecendo naquele ano , na sociedade , e termina em um romance ,realista por sinal .
Muito bom esse post . Parabéns.