“A jornada do escritor”, livro de Christopher Vogler, roteirista e consultor de diversos longa-metragens bem-sucedidos da Walt Disney, Warner Bros, 20th Century Fox, entre outras grandes empresas, é um convite à viagem da escrita.
Com a experiência de quem já avaliou muitos roteiros, ele conta como várias narrativas, apesar de diferentes entre si, apresentam estruturas semelhantes. “Pelos anos afora, comecei a reparar que havia alguns elementos comuns nos mitos e nas histórias de aventuras, certos personagens, adereços, locações e situações que eram intrigantemente familiares”, escreve.
Quando se deparou com o trabalho do mitólogo Joseph Campell, em especial o livro “O herói de mil faces”, Vogler finalmente pôde organizar suas intuições a respeito dos padrões vigentes nos mitos e na construção das histórias. As idéias de Campbell basicamente eram essas: em seus estudos mundiais do “mito do herói”, percebeu que todas as narrativas, conscientemente ou não, são baseadas nas mesmas coisas. Os detalhes e as variações mudam em cada época e cultura mas, fundamentalmente, são iguais. A história é sempre sobre um herói, que sai do lugar em que está acostumado a viver por alguma causa em especial e acaba entrando em uma grande aventura, passando por diversas situações e provações. Vogler conta o “mito do herói” à sua própria maneira, e convida o leitor a fazer o mesmo. Ele afirma que cada contador de histórias possui diferentes propósitos e necessidades culturais.
Vogler fala também sobre os “arquétipos”, termo do psicólogo Carl G. Jung usado para designar padrões de personalidade compartilhados por todas as pessoas, como se existisse uma espécie de “inconsciente coletivo”, assim como existe o insconsciente pessoal. Resumidamente, eles podem ser considerados personificações das qualidades humanas. Os arquétipos se apresentam das mais diferentes formas narrativas, e não permanecem os mesmos do início ao fim. Como afirma o próprio escritor: “(…) descobri outra maneira de encarar os arquétipos – não como papéis rígidos para os personagens, mas como funções que eles desempenham temporariamente para obter certos efeitos numa história”.
Para ilustrar os estágios da jornada do herói e, paralelamente, os arquétipos, são usados desde mitos antigos, até desenhos animados e filmes atuais.
Vogler afirma que um “herói” pode ser tanto um homem quanto uma mulher, mas, visto que as mulheres antigamente, em diversas civilizações, foram queimadas, maltratadas, hostilizadas e tidas como incapazes, a maior parte dos mitos existentes mostram homens como protagonistas. Alguns filmes mais atuais apresentam mulheres, como o “Mágico de Oz”, por exemplo, mas os homens ainda são maioria. Talvez porque, como explica o livro, a palavra “herói” vem do grego “proteger e servir”, características predominantemente vistas como masculinas, já que o “servir”, no caso, não está relacionado à servidão, e sim a ser útil e ajudar as pessoas ao redor.
O final do livro fica por conta das análises de alguns longas famosos, tendo como base a jornada do herói. A análise mais interessante é a do filme “Pulp Fiction”. O autor traça um paralelo entre a história fragmentada do filme e a juventude igualmente fragmentada dos dias de hoje.
O livro “A jornada do escritor”, como o próprio Christopher Vogler faz questão de frisar no início, não é um manual ou um guia, e nem deve ser levado ao pé da letra, para não ocorrerem estereótipos. É uma forma, não uma fórmula, e visa fazer o leitor entender mecanismos que fizeram boas histórias funcionarem. O ideal é que as informações sejam engolidas e regurgitadas de uma nova maneira.
1 Comentário
6 06UTC Dezembro 06UTC 2008 às 6:17 am
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