O início de uma revolução
Quarenta anos passaram-se e 1968 continua ativo no imaginário coletivo.
Pudera. Um ano de intensa revolução, principalmente cultural e, curiosamente, paralela em diversos lugares, não pode ser esquecido assim facilmente.
Brasil, França, Estados Unidos, República Tcheca e Alemanha são alguns dos países em que jovens inconformados protestavam, quebravam regras, exigiam reformas políticas ou o que quer que fosse necessário para a melhoria de sua pátria.
Com isso, as minorias antes deixadas de lado, passaram a também ter voz, como, por exemplo, negros, homossexuais e, claro, as mulheres.
Para esclarecer: o feminismo não surgiu em 68. Várias mulheres de épocas anteriores já haviam lutado contra a dominação masculina e o patriarcado de uma maneira geral, revoltando-se com a baixa instrução que lhes era destinada, exigindo o direito de votar e mais participação política, entre outras coisas. Mas 68 foi um ano barulhento e, para serem ouvidas, as mulheres precisavam fazer barulho também.
A emblemática queima de sutiãs
Quando o assunto é feminismo no ano de 1968, logo vem à cabeça das pessoas mulheres queimando sutiãs. De acordo com a doutora de Sociologia em Educação, a paulista Daniela Auad, em seu livro “Feminismo – Que história é essa?”, isso não passa de exagero de jornalistas que, na época, queriam chamar atenção. Ela conta que o acontecido, na verdade, foi o seguinte: em um concurso de Miss, nos EUA, mulheres se uniram para protestar contra os altos padrões de beleza vigentes, e jogaram sutiãs e cosméticos em baldes de lixo.
Já a alemã Frigga Haug, professora de Sociologia e Psicologia Social, afirma em seu texto “O novo movimento feminista”, que em protesto contra a indústria de lingerie, uma queima de sutiãs foi organizada em Berlim.
Sutiãs à parte, o importante é que as mulheres de diferentes locais estavam protestando contra comportamentos que lhes eram impostos. Elas não queriam ser o que era esperado que uma mulher fosse. Elas queriam autonomia.
O porquê de seus atos deve ser analisado. Não apenas os atos lançados a esmo, como se não possuíssem causa ou fundamento. Muitas vezes, com o intuito de menosprezar e criticar o feminismo, a tal “queima de sutiãs” é usada para “demonizar” a imagem das mulheres.
Mulheres de 68
A participação das mulheres naquela época foi grande. Eram militantes políticas em movimentos partidários, lutavam contra a ditadura, apoiavam minorias étnicas, pediam o fim da guerra do Vietnã, entre outras coisas.
Mas ainda faltava uma representação feminina em áreas de poder. Existiam desigualdades no mercado de trabalho e no plano educacional e as mulheres ainda sofriam preconceito e eram subjugadas, mesmo com toda a mudança de mentalidade que ocorria em 68. Isso gerou uma inquietação coletiva, que resultou em ações de protesto, inconscientes ou conscientes.
As mulheres que agiam inconscientemente podem ser chamadas de “feministas intuitivas”. Elas não estudavam a condição da mulher, nem tinham um conceito formado sobre o assunto, mas, de alguma forma, sentiam que algo estava errado, e faziam sua parte para mudar a realidade. No Brasil, temos alguns exemplos, como a atriz Marília Pêra, que atuava na peça “Roda Viva” e foi presa duas vezes em 68, lutando contra o cerceamento artístico. A atriz Maria Gladys, musa do cinema marginal que atuou em diversos filmes polêmicos e viveu 68 ao pé da letra: sexo, drogas e rock’n’roll, além da polêmica Leila Diniz, também atriz, que falava abertamente sobre assuntos que eram considerados tabus, como sexo e sexualidade, tinha uma linguagem recheada de palavrões e foi a primeira gestante trajando roupa de banho a aparecer em público. Ocorreu também, no segundo semestre de 68, a fundação do “Movimento Feminino Pela Anistia”, com a proposta de mobilizar a opinião pública contra as prisões, cassações, assassinatos, torturas, entre outros absurdos cometidos pelo governo militar.
Elas não protestavam em nome das mulheres, mas o fato de serem mulheres questionando a organização da sociedade já causava alterações no modo de pensar das pessoas.
As feministas conscientes foram aquelas que perceberam a situação de opressão em que as mulheres viviam, e passaram a realizar reuniões, debates, protestos e estudos relacionados aos direitos femininos. Elas questionavam as raízes das desigualdades políticas, trabalhistas e civis, bem como imposições comportamentais. Em 1968, na Alemanha, atuava a já citada Frigga Haug. Nos EUA, Gloria Steinem estava se tornando cada vez mais politizada, escrevendo a coluna “The City Politic” para a “New York Magazine”, e cada vez mais envolvida com o feminismo graças a encontros com o grupo radical “Redstockings”. Também nos EUA, Betty Friedan, que já estudava o assunto há muito tempo, fundou a “Conferência Nacional de Rejeição das Leis Sobre o Aborto”, que se transformaria depois na “Liga Nacional de Ação Pelo Direito ao Aborto”. Na França, a psicanalista e cientista política Antoinette Fouque fundava o “Mouvement de Libération des Femmes” (“Movimento de Liberação das Mulheres”). No Brasil, algumas das feministas importantes foram Maria Amélia Teles, mais conhecida como “Amélinha”, militante de esquerda, que foi presa e torturada com o marido e os filhos pequenos, e Heleieth Saffioti, socióloga, autora de diversos de livros, e sempre recomendada para quem quer se aprofundar na história do feminismo brasileiro.
Reflexo de 68 nos dias atuais
Com a chegada da pílula anticoncepcional (que foi criada em 1957, licenciada em 1960, mas popularizada a partir de 1968), questionamentos dos valores vigentes, protestos, reuniões e aparições na mídia, as mulheres passaram a perceber elas mesmas como protagonistas de suas próprias vidas. Conheceram melhor a própria sexualidade e as próprias vontades. Talvez, sem esse impulso de libertação causado nos jovens de 68, o mundo hoje estivesse muito mais sombrio.
Mas ainda não é o bastante. Muitos falam sobre o “pós-feminismo”, mas toda a jornada do feminismo, em suas diferentes vertentes, ainda não terminou. Ainda existem mulheres que sofrem, estão à margem da sociedade, são discriminadas, abusadas, estupradas e desrespeitadas de todas as formas. E, muitas vezes, esse preconceito vem embutido, disfarçado de senso comum: “Dirige mal porque é mulher”, “Essa daí gosta de apanhar”, “Mulher não leva jeito pra esportes”, etc.
O feminismo não é coisa de mulher mal-amada, feia ou invejosa, como é caricaturalmente estereotipado por aí. E nem é algo exclusivamente feminino, pois, com a libertação da mulher, o homem também fica livre de seus papéis pré-formatados. O feminismo é uma luta de todos, para que homens e mulheres, de todas as etnias, possam ter espaço para pensar e agir da forma que preferirem, num mundo justo e melhor.
Assim como 1968, o feminismo não terminou.