Muitas pessoas ainda hoje sofrem com o preconceito e com os padrões vigentes, que apoiados na heterossexualidade, no homem e no poder, acabam excluindo e rotulando como “desviantes” aqueles que não se encaixam nem se identificam com as regras que lhes são impostas desde o nascimento.
O sistema patriarcal que rege a organização da maioria das sociedades do mundo atinge e prejudica as mulheres em geral, e também os homens, principalmente aqueles em que a sexualidade diverge do que é considerado normativo. As chacotas e agressões sofridas por esses grupos, algumas vezes noticiadas no jornal, e quase sempre vistas no dia a dia, revelam o alto grau de intolerância de muitas pessoas.
Com base em seus conhecimentos sobre Michael Foucault, importante filósofo que estudou principalmente o poder e a sexualidade, a professora de história da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e autora de diversos livros, Margareth Rago, afirmou no seminário Estudos Feministas e de Gênero em Brasília: Diálogos interdisciplinares (5 e 6 de junho de 2009), que “só enxergando bem o poder e a dominação para conseguir resistir”. A melhor maneira de enxergar o poder e a dominação, para que eles possam ser desconstruídos e os antigos padrões sejam derrubados, dando espaço à diversidade, é estudando-os.
O V Enecult (Encontro de Estudos Multidisciplinares em Cultura), em Salvador, contou com a participação de três importantes pesquisadores que estudam gênero e sexualidade no Brasil. Guacira Lopes Louro, Larissa Pelúcio e Luiz Paulo da Moita Lopes colocaram em debate os novos estudos sobre gênero em uma mesa-redonda, no dia 29 de maio, às 10h, no salão da Reitoria da UFBA. O professor do IHAC, Leandro Colling, vice-coordenador do Cult (Centro de Estudos Multidisciplinares em Cultura) apontou uma das questões centrais de proposta para a mesa redonda a discussão sobre as colaborações dos chamados estudos gays e lésbicos, da travestilidade e da masculinidade. Estes estudos ainda são pouco desenvolvidos no Brasil, mas corroboram para as discussões sobre gênero, de acordo com Colling.
A professora Guacira Lopes Louro, doutora em Educação pela Unicamp, licenciada em História e mestre em Educação pela UFRGS, é conhecida divulgadora e estudiosa da Teoria Queer no Brasil. Seus trabalhos analisam, principalmente, o despreparo da escola na formação de discussões com temáticas de gênero e sexualidade e as grandes barreiras encontradas pelo grupo docente ao se deparar com estudantes que não são heterossexuais. O professor Luiz Paulo da Moita Lopes, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, também trabalha com temas semelhantes, em especial como ocorre a construção das identidades de gênero em várias instituições, a exemplo da escola, a família e a mídia. Já a pesquisadora Larissa Pelúcio, da Universidade de Campinas, estuda as travestis. Atualmente, ela desenvolve sua pesquisa de pós-doutorado intitulada “Trans migrações: corpos, gêneros e prazeres na experiência de travestis brasileiras na indústria espanhola do sexo”.
Na Universidade de Brasília (UnB), o professor de filosofia Hilan Bensusan coordena o Núcleo de Estudos de Diversidade Sexual e Gênero (Nedig), que oferece a disciplina Feminismos e Teoria Queer. Além de sofrer muita polêmica, era formada inicialmente apenas por estudantes da Universidade de Brasília que participaram da disciplina Seminário Teórico Crítico da História da Arte – STCHA 11 e 12, ministrada pelo docente Belidson Dias, professor do Instituto de Artes – IdA. Na tentativa de atender à grande demanda, a disciplina pôde ser ofertada pela primeira vez neste primeiro semestre de 2009, sem necessidade de pré-requisitos, pelo Nedig do Ceam (Centro de estudos avançados multidisciplinares).
Sua ementa está dividida em três unidades e filmografia. A primeira parte é chamada “Críticas feministas à heterossexualidade”, a segunda “Guerras sexuais feministas” (versão feminista de Star Wars) e a terceira oferece textos sobre “multidões queer”, “a epistemologia do armário” e os diversos sexos, além de destacar os direitos das mulheres e dos gays. Entre as unidades I e II, a autora americana Alice Walker recebe atenção especial com sua crítica ao pensamento hetero, através de dois textos, “Uma carta dos tempos” e “Separando-se”. No final do programa, há uma filmografia básica aberta a sugestões dos alunos. Os dois filmes mais sugeridos são “Happy Together”, do Wong Kar Wai, e “The accused”, com Jodie Foster. Respectivamente, tratam o romance entre dois rapazes de Hong Kong e o caso real de uma mulher violentada dentro de um bar.
A matéria rende crédito aos alunos e possui carga horária de uma disciplina inteira. O feminismo, que já é termo conhecido pelo imaginário coletivo, apesar de muitas vezes mal interpretado, além de defender, estuda diversas questões relacionadas às mulheres, como desigualdade, direitos e deveres. Já a Teoria Queer é menos difundida. Ela afirma que a orientação sexual e a identidade sexual ou de gênero dos indivíduos são o resultado de uma construção social, e que cada corpo possui uma reação particular. Por não haver determinantes, não faz sentido falar de “mulheres” em geral, ou qualquer outro grupo, uma vez que identidades são constituídas a partir de muitos elementos. Assumir a consideração de pessoas dentro de termos gerais é baseado em uma característica compartilhada e é equivocado. De fato, ela propõe que deliberadamente nós desafiamos todas as noções de identidade fixadas, em variadas e não-predicáveis maneiras.
A Teoria Queer é baseada, em parte, no trabalho de Judith Butler (em particular seu livro “Gender Trouble”, 1990) e fortemente influenciada pelo trabalho de Michel Foucault, Jacques Derrida, e outros desconstrucionistas. Grande parte da intolerância pela qual passa dentro das Universidades advém da idéia ludibriada de alunos e professores leigos que colocam a “teoria queer” como simplesmente um outro nome para os estudos gays e lésbicos. Apesar de ter emergido destes estudos na década de 90, trata-se de correntes diferentes. A teoria em questão abrange diversas outras porções da sociologia e teoria cultural e lança um desafio duplo tanto ao feminismo, e sua idéia do gênero, como parte essencial do ser.
Considerando que os estudos gays/lésbicos focaram suas investigações na questão de a homossexualidade ser um comportamento “natural” ou “anti-natural”, permanecendo dentro de uma lógica binária, a Teoria Queer expande o foco investigativo ao encampar qualquer tipo de atividade sexual ou identidade que se esteja na fronteira de categorias normativas ou desviantes.
A tradução de queer significa “estranho” ou “esquisito”, mas também é gíria que se equipara a termos pejorativos, como “viado”, “bicha” ou “sapatão”. Segundo Guacira Lopes Louro, no texto “Os estudos feministas, os estudos gays e lésbicos e a teoria queer como políticas de conhecimento”, publicado na revista virtual feminista Labrys, a expressão frequentemente repetida como xingamento constituiu-se num enunciado performativo que fez e que faz existir aqueles e aquelas a quem nomeia. “Performativamente, instituiu a posição marginalizada e execrada. A posição que teria de ser indesejada. No entanto, virando a mesa e revertendo o jogo, alguns assumiram o queer, orgulhosa e afirmativamente, buscando marcar uma posição que, paradoxalmente, não se pretende fixar”, explica.
O ensino da teoria causa polêmica, devido às diferentes crenças e causas que os estudantes acodem, e também por causa daqueles que acreditam na existência de papéis sexuais essencial ou biologicamente inscritos na natureza humana.
O estudante Bruno Carlucci, do curso de Letras, teme o perigo do excesso de relativização na Teoria Queer e comenta questões como prostituição e pedofilia em volta dos teóricos: -Comecei a estudar teoria queer recentemente. Sempre rola uma tensão nas discussões, pois grande parte das teóricas feministas questionam certos posicionamentos por parte de muitos teóricos queer, como relativistas demais. Por exemplo, a questão da pornografia e do BDSM (Bondage, Disciplina, Sadismo e Masoquismo). E não posso deixar de concordar com grande parte dessas críticas quando vejo muitos teóricos queer e pessoas que se alinham com tal teoria ignorarem todos os problemas da indústria pornográfica, olhando muito mais os aspectos relativos, tentando tornar a questão complexa e ignorando as implicações materiais de uma indústria bilionária que objetifica pessoas e naturaliza determinadas práticas como essenciais para a cultura. A questão do posicionamento em relação à prostituição também é outro problema e pior ainda, tem a questão da pedofilia em que há teóricos identificados como queer que se alinham com a visão de determinadas organizações pró-pedofilia como a NAMBLA (North American Man-Boy Love Association).
Segundo o professor Wagner Diniz, da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da UFMG, é preciso admitir que a exploração do corpo feminino e a transformação do corpo em objeto, das quais tradicionalmente a acusaram, podem desfrutar de alguma validade ainda nos dias de hoje. No entanto, ele defende que seria igualmente interessante a apropriação de outras perspectivas quanto ao tema, inclusive aquelas que redimem a pornografia de todas as censuras que ela sofreu ao longo do tempo por vários segmentos sociais. Em relação à pedofilia, ele aponta ser um fato em torno do qual os direitos das crianças e adolescentes devem ser assegurados, mas renega a forma como é feita pela sociedade, através da criação de uma ânsia de estabelecer patologias e punições criminais infundadas:“Acontece mesmo uma notória e completamente desnecessária demonização de pessoas e uma real e sensacionalista caça às bruxas”. – De maneira que, não se trata de defesa de atitudes tal como a pedofilia, que afinal é um crime, mas uma maneira de lidar com o tema sob outras perspectivas menos radicais, quando constatamos por exemplo que a mesma parcela da sociedade que condena ardorosamente a pedofilia é aquela que se encanta com o apelo sexual de jovens (cada vez mais jovens) corpos expostos na mídia, ou que hipervaloriza a frescura e o vigor da juventude em detrimento das marcas do tempo ou qualquer outro sinal de decadência física, ou ainda cujo avô ou qualquer outro ascendente tenha casado com uma meninota mal ela tivesse tido sua primeira menstruação e isto era perfeitamente aceito e até desejado pelos pais da menina- prossegue Diniz.
Tânia Montoro, professora da UnB que foi uma das fundadoras do Núcleo de Estudos e Pesquisas sobre a Mulher (Nepem) da universidade e brigou pela criação da delegacia de atendimento especial à Mulher (DEAM) no Distrito Federal, afirma que estudos de gênero continuam sendo marginalizados, recebendo pouco espaço no meio acadêmico. Durante o Estudos Feministas e de Gênero em Brasília, que além da já citada Margareth Rago, também contou com a presença de muitos outros especialistas em gênero e feminismo, Montoro, que é reconhecida nacionalmente por seus trabalhos, conta que já foi criticada pela linha que segue e aconselhada a tomar frente de assuntos “mais sérios”. Ela afirma também que “as faculdades não abrem cursos de gêneros e a mídia ainda não sabe representar minorias”, e acrescenta que as pessoas não entendem elementos abstratos com facilidade, por isso disciplinas nessas áreas são tão importantes.
1 Comentário
22 22UTC Junho 22UTC 2009 às 9:42 pm
Parábens meninas ficou muito bom…realmente há uma carência em trabalhar os direitos feministas, gays e lésbicos e de gênero com responsabilidade.